À direita, um grande ponto de interrogação
A primeira volta da campanha aproxima-se do fim, mas há algo que se manterá muito depois da decisão eleitoral: a direita portuguesa insiste na sua desidentificação ideológica e continua à procura de um rumo. Ainda muito marcada pelo Estado Novo, a direita procura debater-se a si própria. Houve algumas iniciativas recentes, como é o caso da revista Atlântico, das Noites à Direita do CDS ou da candidatura de Cavaco Silva. Mas a confusão, percebe-se, é imensa. E deliberada. Temos um partido liberal-conservador que se afirma social-democrata. E temos um partido democrata-cristão cujos principais dirigentes são radicalmente liberais em termos económicos e menos afectos aos valores clássicos da família, da Igreja e da pátria. O aborto será a última memória do seu folclore machista e beato. Cavaco foi mais uma oportunidade perdida das direitas anularem os seus complexos ideológicos e assim revalorizarem a clarificação e o debate democrático. O candidato presidencial insiste na sua social-democracia e até cantou Grândola, Vila Morena. A maioria dos seus apoiantes acha tudo isto muito natural. Até é provável que o seja. Para um candidato que é uma espécie de holograma de si próprio, o travestismo ideológico é um pragmatismo eleitoral e isso basta-lhe. Mas nada disto seria trágico se não fosse a metáfora da própria direita que existe em Portugal. Com Cavaco ou sem ele.

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