Um país de Pantufas
Estas eleições trouxeram-nos, como mesmo os mais optimistas já esperavam, a vitória de Cavaco - tangencial, é certo, 0.6% não é uma margem confortável, é palavra dita na altura certa ou na altura errada, um anel de bancada mais cheio ou mais vazio, um segundo de indecisão a menos ou a mais, não é muito, e no entanto se lhe juntarmos 50% .... temos uma estrondosa maioria absoluta.
Cavaco portou-se bem, ensaiado de mais para o meu gosto, com a saída de casa a cortar o discurso de Jerónimo de Sousa a meio do discurso, com uma recepção fantástica numa obra "sua" e um discurso à nação em que, para surpresa geral, não disse nada (à excepção de uma ou duas citações de Mário Soares, sem referência das fontes, claro; mas compreende-se, é não estragar a eloquência e naturalidade do discurso).
Manuel Alegre teve uma vitória amarga, ou uma derrota adocicada se preferirem, superou largamente Mário Soares mas não evitou a derrota da esquerda. Podia perguntar se não teria conseguido os seus objectivos, mas creio que a divisão da esquerda não o era seu objectivo, mas sim um efeito secundário do seu projecto (aliás interessante por conceito, mas claramente inapropriado nas circunstâncias, e mal interpretado no terreno).
Permitam-me que salte Soares, já lá vamos.
Jerónimo comprovou a intuição de muitos, Jerónimo vale mais que o próprio PCP. A sua simpatia mobiliza os comunistas, mas o seu discurso é também apelativo para outras pessoas de esquerda, tendo sabido aproveitar, sem nenhum maquiavelismo, a divisão do eleitorado socialista.
O discurso de Louçã soube transformar uma derrota numa vitória. Os 5,3% vão ser suficientes para pagar a campanha, mas creio que Louçã estava à espera de mais, ao não considerar que Manuel Alegre lhe roubava grande parte do eleitorado, e contando que a sua personalidade valesse mais que o BE. Sou da opinião que vale, Louçã é inteligente, combativo, irreverente e um bom orador, mas o voto no BE ainda é muito flutuante (a organização ao estilo de movimento tem destes defeitos).
Garcia Pereira desceu muito para a última eleição, mas conseguiu finalmente tempo de antena. Continua no entanto a ser um desconhecido para a maioria dos portugueses.
Por último, Soares.
Soares entrou nesta eleição com tudo a perder e nada a ganhar. Já não havia prestígio a ganhar, nem fama, nem grande dinheiro, nem honras, o cargo não lhe podia oferecer nada que ele já não tivesse. E, como se veio a provar, a exposição pública podia trazer-lhe, pelo contrário, ofensas pessoais de todo o género, a degradação do seu nome e prestígio, etc.
O argumento da idade, por muito que o consideremos ridículo e infundamentável, fez o seu caminho pela cabeça das pessoas e transformar o "pai da democracia" em "traidor à pátria".
"Está velho!", "Já não está cá a fazer nada!", "Já passou o tempo dele!", "E a renovação?!", "Assim são sempre os mesmos!" .... ouvi estas e outras frases vezes sem conta.
Se ser jovem é ter .... digamos ... já sendo generosos ... menos de 35 anos, nenhum jovem alguma vez chegará a Presidente da República em Portugal. Se ser jovem é ser irreverente, é ser corajoso, é avançar sem ligar ao que os outros dizem, se é ser idealista, se é ter energia, se ser jovem é querer mudar o mundo, é inovar, é querer, desejar, amar "infinitamente o finito", "desejar impossivelmente o possível" se é "querer tudo, ou um pouco mais, se puder ser, ou até se não puder ser" então Mário Soares é o mais jovem dos candidatos, é mais jovem que a maioria dos jovens que conheço; se se juntarmos a isso a experiência de 81 anos de experiência, estudo, livros, exílio, liberdade, política, advocacia, docência, crises e glórias, temos um sábio.
Um Sócrates que, na hora da morte beberá o cálice de cicuta até ao fim e consolará ainda os seus amigos.
Foi o que aconteceu nos minutos antes do seu discurso de encerramento da campanha. Era Mário Soares quem acalmava as pessoas que estavam com ele naqueles últimos momentos de campanha, por saber que há mais mundo para além daquilo, daquela noite, daquela eleição, mesmo além deste país e deste tempo; por saber que "podem matar uma flor, mas não poderão nunca proibir a Primavera".
E a Primavera virá!
"Even darkness must pass. A new day will come. And when the sun shines, it will shine the clearer."
Portugal não deixará de cumprir-se. Já esperámos mais de 400 anos ... mais 5 menos 5 ... mais 10 menos 10 .... que interesse terá isso "lá para o ano 3000 e tal"? O que interessa é o exemplo, a coragem, a vontade imensa, aquela ousadia que faz encher o peito de algo maior que a própria vida, seja na poesia, na música, na guerra ou na política.
Esse é o exemplo que vai ficar e o grande legado deste projecto, que está destinado a não acabar aqui.
A paixão pela política não acaba aqui, o amor às pessoas não acaba aqui, o sonho de um Portugal integrado na Europa e no Mundo não acaba aqui, a projecto de unir os portugueses num desígnio maior que o combate ao défice não acaba aqui. Soares não acaba aqui.
O país pode ter-se resignado, mas Soares não se resignou. O país pode ter se sentado, mas Soares saiu à rua numa luta desigual. O país pode estar de pantufas para ver o jogo de futebol e a telenovela, mas Soares preferiu tentar levantar o país do marasmo e despertá-lo da ilusão de um salvador vindo da bruma.
Soares não vai "arrumar as chuteiras". Não vai, como muitos queriam, "calçar as pantufas" e resignar-se. Um jovem não se resigna, não se conforma, não "calça as pantufas", nem "arruma as chuteiras", vai à luta, atira-se ao combate.
Soares perdeu. Mas não saiu derrotado, é novo de mais para sair derrotado de uma qualquer batalha.
"Só é derrotado quem desiste de lutar."
Soares não desistiu.
"As grandes causas não acabam."
Os grandes homens não desistem.


Acompanhei esta campanha eleitoral com proximidade. Acompanhei-a com prazer, estando convicto de que apoiava o melhor candidato à Presidência da República. E hoje, apesar dos resultados menos bons, mantenho essa mesma convicção. Mário Soares mostrou uma energia capaz de fazer inveja à juventude e protagonizou uma campanha de afectos e de proximidade.


